Chamem o Pires!

No dia 30 de abril de 1984, o General Walter Pires comparou as diretas com as reformas de base de Jango, pedra de toque do golpe. O ministro do Exército disse que não deveriam ser aceitas “pressões de afogadilho e as bruscas transformações, que desestabilizam o pacto político e social, (conduzindo) a caminhos estranhos à nossa índole democrática e de povo pacífico”.
Pires era apontado volta e meia como candidato a candidato, saída estratégica para a crise do PDS e/ou a porta de saída da situação, pela via militar. Várias vezes durante o período, o general Pires entrou no jogo. Uma declaração dele dá a ideia do seu pensamento:
“Estaremos sempre solidários com aqueles que, na hora da agressão e da adversidade, cumpriram o duro dever de se opor a agitadores e terroristas de armas na mão, para que a Nação não fosse levada à anarquia”..

Quando a emenda Dante de Oliveira empacou por falta de 22 votos na Câmara e Tancredo assumiu a candidatura indireta, criou um grupo de militares para obter informações sobre o que se passava dentro das Forças Armadas. A existência do grupo acabou sendo descoberta mais tarde. Segundo a revista Veja, seu coordenador era o coronel Antônio João, que estudara com Tancredo no ensino fundamental, em São João del Rei. “Para auxiliá-lo na empreitada, convocou dois outros militares nos quais tinha total confiança: o coronel-aviador Hélio de Abreu e o capitão-de-mar-e-guerra Dylo Modesto de Almeida. Cada um se responsabilizaria pela investigação de uma das Forças Armadas, auxiliados por militares de patente mais baixa. Os relatórios secretos eram entregues a Antônio João ou diretamente ao filho do candidato, Tancredo Augusto Tolentino Neves. Tancredo lia tudo. “

Um desses relatórios abordou a reunião em que o ministro do Exército fez um apelo claro ao golpe, tendo como pretexto o comício da campanha de Tancredo em Goiânia, repleto de bandeiras vermelhas – muitas empunhadas por agentes do SNI – e com direito a discursos de líderes comunistas. O general teria dito o seguinte:  “Não podemos permitir nem aturar coisa semelhante. Se preciso, teremos de ‘virar a mesa’ para garantir a ordem e a disciplina no Brasil”. Délio Jardim de Mattos, ministro da Aeronáutica e Era a sugestão explícita de golpe. Alfredo Karam, da Marinha, foi na mesma toada: “A Marinha não entra nessa, está totalmente voltada para a legalidade”. Figueiredo não chamou o Pires. Colocou um ponto final no debate, dizendo que quem fosse eleito tomaria posse.

 

Sobre markun

Paulo Markun, 58 anos. Jornalista e escritor, autor de doze livros e coordenador do projeto Memória Coletiva - a história da luta contra a ditadura.
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Uma resposta a Chamem o Pires!

  1. Gérson Siqueira

    Em Março de 1976, um ano depois da morte de Wladimir Herzog nas dependências do DOI/CODI de São Paulo, o também jornalista Oscar Maurício de Lima Azêdo (foto) foi levado para as dependências do mesmo órgão no Rio de Janeiro, sofrendo uma série de torturas físicas e psicológicas. Azêdo foi interrogado pelo delegado Borges Fortes (Dops), o mesmo que também interrrogou o colega Luís Paulo Machado.

    Tanto Azêdo quanto Machado passaram, encapuzados, pela famosa “cadeira do dragão”, na qual foram torturados com choques elétricos. O suplício de Azêdo durou 48 horas, período em que ouviu dos agentes de repressão a infame ameaça: ”vamos herzogá-lo”, ou simplesmente, dar fim à sua vida, como fizeram com Wladimir Herzog.

    A repressão não mudou. Apenas adquiriu contornos mais sutis, como a mordaça do silêncio, imposta pelos juízes que usam a toga apenas para satisfazerem seus interesses pessoais. Maurício Azêdo, que atuou nos mais importantes veículos de comunicação e hoje é presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)- na qual fez importante remodelação- sabe bem de perto o que foi viver nos anos de chumbo.

    Gérson Siqueira, 29 anos de profissão, é jornalista em São Paulo.

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