Nascido em 1926, Marco Antônio Tavares Coelho desde cedo se interessou pela leitura e pelos acontecimentos políticos que lhe rondavam. Ainda moço e recém chegado à Faculdade de Direito, por meio de Darcy Ribeiro, ligou-se ao Partido Comunista e, aos poucos, foi se tornando nome importante dentro do partido – sobretudo em Minas Gerais, estado em que nascera e se criara. Pelo PCB, clandestinamente, foi para o Rio, onde exerceria o cargo de coordenador da Assessoria Técnica Parlamentar.
Pouco tempo depois, já eleito membro suplente da direção nacional, Marco Antônio engajou-se na legalização de seu partido: ao lado Luiz Carlos Prestes, levou os documentos necessários à Brasília, no Superior Tribunal Eleitoral. Poucos meses depois, seria escolhido o candidato dos comunistas para a Câmara dos Deputados. No pleito de outubro de 1962, seria eleito Deputado Federal sob a legenda da Frente Popular, constituída pelo Partido Social Trabalhista e Partido Social Democrático, pelo estado da Guanabara. Apenas treze meses depois de tomar posse, teria seu mandato cassado e seus direitos políticos cancelados por dez anos – era 10 de abril de 1964 e os militares há pouco tomaram o poder.
A 18 de janeiro de 1975, às onze horas da manhã, foi preso no Rio de Janeiro, condição da qual somente se livraria às vésperas do natal de 1978. Em junho, julho e agosto de 1975, recluso, encontrou nas folhas de papel fino de que dispunha o veículo para se comunicar com Teresa, sua esposa. Foram onze cartas, num total de 125 folhas: escreveu-as à noite, numa cela do cadeião da Mooca, quando – segundo o próprio Marco Antônio – “todos os presos tentavam dormir, sonhando muitas vezes de olhos abertos com o dia em que sairiam daquelas celas imundas e malcheirosas”.
Teresa entrava então em contato com o cotidiano do marido – para ela, relatava desde a primeira carta as saudades que sentia, as más condições de sua cela e as sessões de tortura ao qual fora submetido:
“As menores coisas, inclusive lembranças, me comovem. Mas não pense que isso signifique tristeza ou melancolia. Não vejo o futuro negro”.
“Nem água, nem pão. Nem um urinol. É uma câmara de execução em que só se pensa na morte. Dentro dela o preso só lastima uma coisa: o ‘diabo’ do corpo continua aguentando”.
“E as torturas na cela foram várias. Cinco vezes colocaram-me no ‘pau-de-arara’, horas longas de ‘choques’ cauterizadores queimando partes sensíveis do corpo”.
Teresa usou-as como base para escrever uma carta ao presidente Geisel: nelas, denunciou as torturas sofridas pelo marido nas dependências do Departamento de Operações Internas (DOI) do II Exército, em São Paulo. Três dias depois, o Ministro da Justiça, Armando Falcão, desmentiria Teresa, alegando, com um laudo pericial, que Marco Antônio nada sofrera. Pouco tempo depois, ele mostraria as cicatrizes ao juiz, o que, nem assim, lhe livraria da prisão.
Em 2000, Marco Antônio Tavares Coelho escreveu Herança de um Sonho – as memórias de um comunista, livro em que ele escreve sua autobriografia, e onde podem ser encontradas trechos das cartas para Teresa, escritas por ele. Com “Minha querida”, “Querida”, “Querida Teresa”, “Teresa querida” ou “Teresa, minha Teresa”, o marido a saudava, e nas linhas que se seguiam, contava-lhe o que o afligia, com uma caneta esferográfica, debaixo de uma luz mortiça.

